Discursos de Siddhartha – O Semeador de Tâmaras

Quem Planta Tâmaras não Colhe Tâmaras

Siddhartha responde a uma pergunta  sobre a história do Semeador de Tâmaras – “Quem planta tâmaras, não colhe tâmaras!” Conta-se que certa vez um senhor de idade avançada
plantava tâmaras no deserto quando um jovem o abordou e perguntou: “Por que perde seu tempo plantando o que não vai colher?” O senhor virou a cabeça e calmamente respondeu: “Se todos pensassem como você, ninguém colheria tâmaras”.

Este antigo ditado árabe, é considerado uma história sufi, uma parábola  e aqui abaixo uma linda versão extra do do livro de Jorge Bucay

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O Semeador de tâmaras

Num oásis escondido numa das mais longínquas paisagens do deserto, encontrava-se o velho Eliahu, de joelhos, ao lado de umas palmeiras de tâmaras.
O seu vizinho Hakim, o endinheirado mercador, deteve-se no oásis para descansar os camelos e viu Eliahu a transpirar, enquanto cavava na areia.
– Então velho! Que a paz esteja contigo.
– E contigo – respondeu Eliahu, sem abandonar a sua tarefa.
– Que fazes aqui, com este calor e com essa pá nas mãos?
– Estou a semear – disse o velho.
– Que semeias aqui, Eliahu?
– Tâmaras, disse Eliahu, apontando para as palmeiras à sua volta.
– Tâmaras, repetiu o recém-chegado. E fechou os olhos como quem escuta a maior estupidez do mundo, com compreensão. – O calor prejudicou-te o cérebro, querido amigo. Vem, deixa essa tarefa e vamos à loja beber um copo de licor.
– Não, tenho de acabar de semear. Depois, se quiseres, vamos beber um copo…
– Diz-me amigo, quantos anos tens?
– Não sei…Sessenta, setenta, oitenta… Não sei… esqueci-me. Mas que importância tem isso?
– Olha, amigo. As tâmaras demoram mais de quarenta anos a crescer e só quando se transformam em palmeiras adultas estão em condições de dar fruto. Não te desejo mal, como sabes. Oxalá vivas até aos cento e um anos, mas tu sabes que dificilmente poderás colher o que semeaste hoje. Deixa isso e vem comigo.

– Olha, Hakim. Comi as tâmaras que outra pessoa semeou, outra pessoa que também sonhou em comê-las. Eu semeio, hoje, para que outros possam comer, amanhã, as tâmaras que estou a plantar… E bem que seja em honra desse desconhecido, vale a pena terminar a minha tarefa.

– Deste-me uma grande lição, Eliahu. Deixa-me pagar-te com um saco de moedas esta lição que hoje me deste. – E, dizendo isto, Hakim pôs na mão do velho um saco de couro.
– Agradeço-te as moedas, amigo. Como vê, às vezes acontecem coisas destas: o teu prognóstico é que eu não chegarei a colher o que semeei. Parece verdade e, no entanto, olha, ainda não acabei de semear e já colhi um saco de moedas e a gratidão de um amigo.
– A tua sabedoria espanta-me, velho. Esta é a segunda grande lição que hoje me dás e talvez seja mais importante do que a primeira. Deixa-me pagar-te também por essa lição com outro saco de moedas.
– Às vezes acontecem coisas destas – prosseguiu o velho. E estendeu a mão, olhando para os dois sacos de moedas – Semeei para não colher e, antes de acabar de semear, colhi não uma, mas duas vezes.
– Chega, velho. Não continues a falar. Se continuares a ensinar-me coisas, tenho medo que toda a minha fortuna não seja suficiente para te pagar…
FICHA TÉCNICA  – DISCURSOS DE SIDDHARTHA

Música:  Flauta – Siddhartha / Edição e Mixagem – Gusta Proença/ Composição -Siddhartha

Vídeo: Gravação – Giovana Gulin / Edição – Equipe Delphis

Duração: Tempo total – 23:37 minutos.

Gravado: Realizado na sede da Delphis Universalis  Curitiba – Julho de 2017 – Respondendo a uma pergunta.

Voz: Leitura Texto – Giovana Gulin