Pergunte ao Siddhartha

Siddhartha, pode me falar a respeito do orgulho?

Resposta do Siddhartha

O orgulho pode ser visto como uma atitude positiva ou como negativa, dependendo das circunstâncias. Ela se molda da maneira que mais lhe convém. Assim, o termo orgulho pode ser empregado tanto como sinônimo de soberba e arrogância, quanto para indicar dignidade.
Para compreender o orgulho é necessário que, primeiro, se compreenda o ego, porque um é condição natural de ser e o outro produto da sociedade que tomou o seu lugar.
Quando você nasceu, veio ao mundo sem conhecimento nenhum, sem consciência do seu EU. A primeira coisa da qual você se tornou consciente quando nasceu não foi de você mesmo, mas sim, do outro. Seus olhos se abriram para o mundo afora, suas mãos alcançaram os outros, seus ouvidos escutaram as vozes e barulhos externos, todos os seus cinco sentidos estavam direcionados para o mundo exterior. Nascimento signifi ca vir para fora, adentrar este mundo.
Assim, quando você veio ao mundo, entrou na dimensão externa. Ao abrir os teus olhos, pela primeira vez, você viu ao seu redor as fi guras mais diversifi cadas. Figuras que chamaram a tua atenção. Para você, naquele instante isto era vida.
Primeiro, se tornou consciente da fi gura da “MÃE”, em seguida dos outros corpos ao seu redor. Somente depois de algum tempo, se tornou consciente do corpo no qual existia tua vida.
Todos estes corpos que você percebeu, pertencem ao “mundo” e é desta maneira que toda criança cresce. Ela está com fome, começa a sentir o próprio corpo, quando sua necessidade é satisfeita, ela o esquece. Ela não está identifi cada com o corpo. Primeiro, se tornou consciente do outro, e então, aos poucos se tornou consciente de si mesma.
Essa consciência não é real, mas uma consciência refl etida, imposta. Você não tinha idéia de quem era. Estava consciente da mãe, do espaço em que se encontrava, dos seus parentes e daquilo que todos pensavam a respeito de você.
Quando uma mãe sorri, quando ela aprecia a criança, quando ela a elogia, quando lhe faz carinho a criança se sente bem a respeito de si mesma. Neste sentir-se bem em relação a algo, uma faceta do ego começa a nascer. Através destes gestos de apreciação, ela percebe que é boa, ela percebe que tem certo valor, ela sente que tem importância.
Uma identidade começou a nascer. Esta identidade não é a sua verdadeira essência. Ela não sabe quem ela é, simplesmente, percebe aquilo que os outros pensam a respeito dela, aquilo que eles demonstram. A criança não precisa saber quem ela é, senão, teria nascido com um espelho no bolso!
O ego é o refl exo daquilo que os outros pensam a respeito dela. Este ego começa a existir quando a criança se identifi ca com aquilo que os outros pensam, exigem e querem dela.
Portanto, mesmo que ninguém a aprecie, ninguém lhe faça cara mansa ou a elogie, o ego nasce da mesma maneira. Talvez, este ego seja triste, doente, ou rejeitado. Talvez, este ego seja como uma chaga que nunca sara. Envolvida neste ego, a criança sente-se inferior, desvalorizada, excluída, esquecida… Nasce uma Identidade. Esta identidade também começa a existir quando a criança se identifi cou com aquilo que os outros pensam dela, não é a sua verdadeira essência, mas um refl exo. Não é a sua essência, mas o ego.
No início, a fi gura materna signifi ca o mundo. Aos poucos, os outros se juntarão a ela, e seu mundo irá crescendo. Quanto mais este mundo cresce, mais complexo se tornará o ego. Quanto mais pessoas fazem parte de seu mundo, mais opiniões lhe serão refl etidas. O ego é um fenômeno acumulativo, nasce, vive e cresce a partir do viver com o outro.
No caminho do despertar o ego tornou-se uma necessidade. Todos devem passar por ele, pois a verdade só poderá ser alcançada se UM viveu na ilusão. Não poderá reconhecer a verdade diretamente.
Primeiro, tem que se perder naquilo que não é verdadeiro, senão, não terá condições de distinguir um do outro. Somente através do ego, o buscador é capaz de procurar a verdade. Uma vez que você reconhece o falso como falso, então, a verdade aparecerá perante você.
O ego é uma necessidade social. É um produto da sociedade. Quando falo em “sociedade” me refi ro ao mundo artifi cial que está ao seu redor, você não faz parte dela, mesmo se ela está presente em tudo àquilo que faz parte da sua vida. Tudo, menos a natureza, faz parte da sociedade. Todas as pessoas refl etem a sociedade. Nas escolas, por exemplo, professores são o refl exo de quem você acabou se tornando, te moldando de maneira que você se torne ainda melhor, perfeito.
Todos estão acrescentando algo ao seu ego. Todos estão tentando te modifi car, de maneira que você não seja um perigo para a sociedade.
O orgulho é um fenômeno totalmente diferente. É totalmente natural. Faz parte da natureza. Se você olhar uma onça deitada na selva verá no seu ar, um ar de orgulho, de graça, de dignidade. Até o vôo de um urubu tem uma graça. A natureza é ausente de ego, mas repleta de orgulho. Tudo é assim como é. Nada depende de uma opinião para ser, simplesmente é. A dignidade é a essência de seu ser, brota da alma de sua alma. Isto é algo extremamente sutil, mas existencialmente religioso.
Os santos renunciam à vida, à liberdade de si mesmos. O ego se torna santo: o mundo está contente!
Na verdade, o ego apenas encontrou uma nova face: uma face sagrada. Toda religião está mascarando seu ego de anjo, para que você possa sentir-se são, enquadrado na sociedade que acredita.
Todas as religiões pedem que você deixe de ser orgulhoso, que você deixe de ser egoísta, elas te incentivam a ser humilde. Os religiosos são muito humildes. Na religião, ego e orgulho se tornaram sinônimos.
No caminho da verdade, é necessário ir além dessas limitações da sociedade, dos limites adquiridos pelo próprio ego e, mais uma vez, se tornar criança.
Um espaço que só poderá ser tocado a partir da coragem, do orgulho, da dignidade. Somente o orgulho intocado pelo ego é a natureza da vida.
É necessario muita coragem para adentrar os caminhos nunca trilhados, assim como, uma criança intocada começa a descobrir o desconhecido na vida.
Somente os que tiverem coragem serão abençoados pela existência mais uma vez.

Veja outras perguntas feitas ao Siddartha